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ONDE ACABA O STRIPTEASE
Thiago Granai, 2021

It’s the theatrical/ Comeback in broad day/
To the same place, the same face, the same brute/
Amused shout:/ ‘A miracle!’

Sylvia Plath
  
Is that all there is to a fire?
Peggy Lee


A sedução é teatral. Aos poucos, ela se realiza em um ritual encenado com o tempo e a atenção. Cada gesto se pretende como uma revelação cuidadosamente selecionada, instigando a apreensão do todo, mas só as partes podem ser vistas. No striptease, tira-se, lentamente, uma peça de roupa de cada vez, seduzindo pela nudez, que pode ou não se dar por completa. Nunca se dá, no trabalho de Mariana Destro. Ainda que ela assim se exponha, não a vemos inteira — “é mais bonito assim”, ela diz.
            Fantasia e identidade se envolvem em erotismo e termos simbólicos consumados em Nonada (2019–2021), trabalho hipermídia que simula o desktop de Mariana. Após meses de experimentação em produção de arquivos digitais, seu desktop é também seu ateliê. Este reúne, além de produções autorais, referências, arquivos pessoais e encontrados, e elementos de trabalho. O que, de certa forma, traduz toda sua produção, sempre composta de referências culturais e apropriações. Nonada pode ser uma apresentação articulada da pesquisa realizada pouco antes e durante os anos de sua produção, mais do que isso, porém, é uma abertura generosa ao espaço íntimo de construção poética da artista.
            Fora da razão, sonhos, cartas de tarô e símbolos pessoais assumem formatos digitais e ensejam interpretações para a psiquê da artista. E assim se navega pelo trabalho, entre textos, imagens, vídeos, gifs, áudios e músicas, relacionando arbitrariamente as peças dispostas e estabelecendo, intuitivamente, as próprias conexões. Os sonhos, guardados em uma pasta junto a frases geradas por uma IA (inteligência artificial) oráculo, contam histórias vividas no inconsciente, ao som de “Journey in Satchidananda” (1971), de Alice Coltrane, sobre a imagem da água. Já as cartas de tarô escondem (por senha: travessia) histórias íntimas de encontros casuais aparentemente previstos pelo oráculo, como sugere o fim do conto guardado na carta O Sol. Se os trabalhos anteriores ao Nonada, no mesmo ano, mostram Mariana em frente à câmera, performando como as camgirls enquanto investiga tal prática, aqui ela revela pensamentos e desejos por trás da exposição: “não só quero seduzi-los como quero ser legitimada pelo meu trabalho”, em um dos textos.
            Como se contasse as intenções por trás do predecessor Por meio deste trabalho desejo seduzir (2019), Nonada também concentra questões que perpassam outras produções anteriores, como Floating gaze (2018), Rainforest (2019) e I AM THAT (2019). Em Floating gaze, o exercício de camming e de autoexposição é explorado e realizado pela primeira vez, em busca de uma forma coerente de se autorrepresentar enquanto a lógica do olhar pende para a lógica exploratória masculina. Em Rainforest, essa lógica é localizada, pela artista, na epistemologia ocidental e suas interferências no Sul Global, ilustrada em citações de pensadores europeus que definiram a forma como o Brasil é, ainda hoje, entendido. Essas citações invadem as imagens de Mariana como Maria Padilha, com uma peruca longa e morena, em um cenário tropical e artificial montado para a apresentação na webcam; Maria Padilha, como se pudesse desafiar o olhar, ainda que imersa em contradições. Em I AM THAT, a artista questiona o valor da presença em interações de sexo virtual em um vídeo simultaneamente exibicionista e meditativo. O corpo-paisagem com o qual Mariana interage respira em um ritmo profundo, harmonizado com referências a práticas meditativas que integram o trabalho. O título, tradução de So Ham, mantra hindu associado ao som da respiração, poderia reverberar a passagem de The Bell Jar (1963), de Sylvia Plath: “I am, I am, I am”, no momento em que a protagonista, tão próxima da morte, ouve, na respiração, as batidas de seu coração.
            A relação desenvolvida entre identidade e representação ao longo de sua produção recente é, então, transparecida no desktop sobre a dinâmica existente entre os profundos e verdadeiros desejos e a imagem que construímos para nós mesmos (ou entre id, ego e superego). A artista mostra que seu desejo de seduzir é o desejo de recriar determinadas narrativas e recontar sua história. Seduzir para enganar o olhar, pelo poder de determinar o que pode ser visto. Para não só afirmar sua subjetividade, constituída sob as tensões políticas do olhar, como dissolvê-la entre pulsões de vida e morte, tão intimamente ativas no erotismo; num breve gosto de liberdade política.
            O striptease é a figura central de Nonada, elaborado conceitualmente entre as diversas peças que o mencionam. No texto de Le Striptease (1988), de Sophie Calle; na história contada de Oxum e Iansã; no excerto apropriado do filme Strip-tease (1963), de Jacques Poitrenaud, ao som da música homônima na voz de Nico; em Lady Lazarus (1965), de Sylvia Plath, nos versos citados por Mariana; nas figuras dispostas no desktop, recorrentes no trabalho visual da artista, como a peruca e a costela-de-adão (uma pela fantasia, a outra pela mítica em torno do sexo). Os sonhos e as histórias nas cartas de tarô descrevem experiências eróticas que também podem ser lidas sob a ótica do striptease. Descrito e referenciado de tantas formas, o striptease se torna um meio de gerenciamento de tempo e expectativas pela própria performance, sintonizando passado e futuro, vida e morte. Enquanto no texto de Sophie Calle ele corresponde a uma aventura, no de Sylvia Plath (sendo omitida esta parte no trecho disponível em Nonada), é uma metáfora para a espetacularização da morte em relação ao corpo, podendo ser constantemente reencenado. Trata-se de uma revelação gradual por camadas, incorporada ao próprio acesso de Nonada, que entre um arquivo e outro, conforme se explora o trabalho, revela mais do universo de Mariana, apresentado estrategicamente ao construir-se dentro dessas relações, como em uma curadoria.
            Mariana, como também curadora, associa a pesquisa artística e curatorial ao organizar tais referências de maneira direta e intencional na produção. Assim, Nonada parece produzir um tipo de marco em seu trabalho, que concentra, além de questões poéticas, práticas que definem a pesquisa: seleção, apropriação e articulação de elementos já existentes, reinscritos em outras narrativas. Se a natureza da produção de imagens de mulheres no Sul Global se implica nos olhares imbricados em estruturas preexistentes de dominação, a artista se ocupa em determinar outros pontos de vista. Ela formula sua própria imagem pela leitura ativa de elementos de seu universo, entre livros, filmes, álbuns musicais e outros artistas visuais, atravessada por elementos que desafiam a racionalidade (como os sonhos e o oráculo) para uma postura crítica e epistemológica sobre a experiência e o reconhecimento.
            Em um único arquivo, Mariana expõe seu corpo e sua imagem em uma troca de nudes registrada por um chat online arquivado. Essa conversa produz alguns comentários sobre o striptease e a articulação de uma experiência através de fragmentos de um todo. O homem reclama que Mariana nunca se deixa ser vista por inteira, ao contrário, instiga, seduz. Ela maneja a interação. Diz, “é só juntar os pedaços. aí cê me vê inteira.” Ao receber o nude, uma foto enquadrada de um pênis, ela se lembra de Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Ōshima, filme erótico e brutal baseado na história de Sada Abe, uma mulher japonesa que assassina o amante, decepa seu membro e o guarda em sua bolsa. Essa lembrança faz o nude parecer também decepado, como uma imagem independente de um corpo e transformada em um objeto. Como uma revelação do pensamento poético sobre sua produção, essa imagem indica algo sobre as outras: todas são fragmentos de algo, cortadas, enquadradas e editadas, sem deixar de reconhecer possíveis violências. E, assim, Mariana articula estrategicamente a apresentação dessas imagens e não se deixa ser capturada —
                “Aqui acaba o striptease.”
© 2026 Mariana Destro